sábado, 3 de setembro de 2011

Nomes colectivos

Quando falas de um conjunto, sabes como lhe chamar?
Já não é nome comum, não te podes enganar!
Nome próprio também não, porque são uma colecção,
Não se escreve com maiúscula. O que lhe chamar então?
Não são uma qualidade - também não são adjectivos.
Andam juntos, aos grupinhos - são os nomes colectivos.
Se formos muitas pessoas, somos uma multidão;
Um conjunto de estrelas é uma constelação.
Os pinheiros todos juntos têm o nome de pinhal,
Mas se forem oliveiras, chamamos-lhe olival.
Se estivermos no montado, sabemos que são sobreiros,
O souto, por outro lado, é um grupo de castanheiros.
Aos soldados na parada dá-se o nome de pelotão,
Mas se forem muitos, muitos, já formam um batalhão.
No futebol, a equipa são os onze jogadores;
Já na música, o coro é o conjunto dos cantores.
Se falarmos de aviões, teremos uma esquadrilha,
Mas ao conjunto de cães, chamamos uma matilha.
Os porcos formam a vara, os pintos uma ninhada;
Os bois que andam no pasto, não se afastam da manada.
Os peixes vão em cardume quando andam a nadar,
Mas se olhares para as aves, andam em bando a voar.
Há ainda a alcateia, com os lobos a uivar,
A cáfila, com os camelos do sultão a passear,
O enxame, se pensarmos em moscas ou em abelhas
E o rebanho – o conjunto de carneiros ou ovelhas.
Ana Godinho

Os nossos ossos


Ora vamos a lembrar
Os ossos que todos temos.
São tantos para decorar,
Escrever e apontar,
Ler e identificar,
206, pelo menos…
Servem para suportar
O nosso corpo ao andar,
Proteger órgãos vitais,
- Os pulmões e outros que tais,
Para os músculos agarrar
E os tendões segurar.
O fémur é o maior
E o estribo é o menor,
Um na perna, é sabido,
Outro dentro do ouvido.
O crânio é na cabeça
Que é onde tudo começa,
Junto com o maxilar,
Que serve para mastigar.
O úmero fica no braço,
- Ponho já aqui um traço -
Com o rádio e o cúbito,
Já me lembro, de súbito!
A tíbia e o perónio
- Partiu-se o do António,
Junto com o gigantão,
Na perna é que eles estão!
No peito são as costelas
Que eu consigo tocar nelas,
Com o externo bem ao centro,
Com o coração lá dentro.
As vértebras lá atrás,
São aquilo que te faz
Ter coluna vertebral,
Estar em pé, então que tal?
Ainda tens mais alguns
Com nomes pouco comuns:
A rótula, no joelho
E mais em baixo o artelho.
A falange e a falanginha
Ficam mesmo na pontinha.
E isto – sublinha a preto –
Forma o teu esqueleto.
Ana Godinho

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Que figura!


Um quadrado bem traçado,
Lados iguais, já se vê…
Caiu da face de um dado
Para a caixa de um CD.

Lá dentro o CD resmunga
Com os seus botões, assustado.
- Sou um círculo redondinho,
Não me dou com um quadrado…

Diz o guardanapo por fim,
Em triângulo dobrado:
- Hoje puseram-me assim,
Também já não estou quadrado…

Na caixa de leite, ao lado,
Um rectângulo, bem feito
Teve pena do quadrado
E falou-lhe deste jeito:

- Não leves a coisa a peito!
Tenho os lados dois a dois.
Tu, ao menos, és perfeito.
És todo igual. E depois?

Ana Godinho

O mexerico dos sólidos


Já sabem da esfera?
Anda por aí a rolar,
Na bola de futebol, na laranja e no balão
E ninguém a faz parar.
Só fica quieta quando está na nossa mão…

Ouviram do cone?
Anda no chapéu da fada
E até mesmo no gelado de baunilha e caramelo.
Eu cá não entendo nada!
Vi-o na ponta do lápis, afiado que era vê-lo…

Viram o cilindro?
Tem a mania que é doce!
Vai no frasco de compota e na lata de ananás.
Ouvi dizer que tem tosse,
Pois viram-no no xarope que deram àquele rapaz…

Contaram-vos da pirâmide?
Acha que é torre de igreja!
Subiu para o torreão do castelo da rainha.
Quer que toda a gente a veja,
Imaginem que até tem uma luz lá na pontinha…


Acreditam no cubo?
Parece que anda às cores,
De cubo mágico vestido, - disto não há memória -
E foi perder-se de amores
Por uma face do dado do jogo da glória…

Souberam do prisma?
Anda confuso, coitado…
Está na tenda de campismo, mas parece bem aflito.
Ainda bem que está deitado,
Porque quando está de pé vira caixa de palito.

E o paralelepípedo?
Deu para jogar dominó!
Meteu-se num autocarro, numa caixa bem fechada,
Sem bilhete, vejam só!
Puseram-no logo fora, numa pedra da calçada…

Já viram isto?
Andam nas bocas do mundo,
Os sólidos geométricos, em movimento constante.
Mas lá no fundo, no fundo,
Sabermos os seus nomes é bem importante…
                      Ana Godinho

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

A letra mágica

Cansado de aparecer só no xilofone, no peixe e na ameixa, o X decidiu aprender magia. Sim, porque isto de o meterem no caixote do lixo e no xarope amargo do Xavier, não é coisa que qualquer letra ature!
Então o X tornou-se numa letra mágica:
Salabim salabum!
E apareceu a auxiliar o próximo, o que foi o máximo!
Zalabim zalabum!
E foi para o exército fazer exercício, no momento exacto.
Eislabim eislabum!
Explorou o texto, numa experiência bem explicada.
Csalabim csalabum!
Respirou oxigénio e apanhou um táxi para ir ao boxe.


O que aprendi?

O X lê-se ch no início das palavras e às vezes no meio, como em caixa.
O X lê-se z quando está entre duas vogais, como em exame.
O X lê-se cs no interior e no final de certas palavras, como em fixo.
O X lê-se eis quando está no final da sílaba, como em extintor.
O X lê-se ss quando está entre duas vogais, como em trouxe.
                                                            Ana Godinho

Casos de leitura

Um R ou dois RR

Um dia, o R, todo vaidoso, saiu de casa, bem presunçoso.
Ia na rua, quando ouviu o ruído do rio.
- Que rica ideia! – Pensou o R e saltou para a roupa do Rui, um rapaz lá da sua rua.
Foi então que o Rui parou junto ao muro, ao ver um caracol que subia a parede.
O R corou e fez uma careta. Que fazia ele no meio de duas vogais?
A coruja e o canário riam a bom rir da cara do R!
Foi então que outro R saiu do ramo de rosas e rolou para junto dele.
Agora o R já não estava errado. De dentro do gorro do Rui, sorriu ao burro que puxava a carroça pela serra acima, carregado de garrafas.
                                                                                                          

O que aprendi?
O r entre duas vogais lê-se de forma diferente, como em caracol. Por isso às vezes aparecem dois rr juntinhos, como em garrafa.
                                                                                                     Ana Godinho




Um S ou dois SS

O S sacudiu a sola do seu sapato e saiu da sala. Comeu a sopa e a salada, bebeu o sumo e foi dormir uma soneca.
A Luísa tocava música e o S pensou:
- Que coisa! Não consigo dormir com o som da música! Porque é que eu estou entre duas vogais? Assim o meu som soa diferente…
Colocou a camisola e o casaco que usava para sair de casa, e de repente ouviu um pássaro que assobiava lá fora no passeio.
Foi ver o que se passava. Só podia ser outro S!
Os dois SS juntinhos passearam com a Vanessa no sossego da tarde.



O que aprendi?
Quando o S está no meio de duas vogais, para se ler com o valor de ç, duplica-se para não soar como o z.
passeio  lê-se com o valor de ç
casaco lê-se com o valor de z
                                                                                            Ana Godinho



              nh

A doninha manhosa saiu da casinha
e foi de visita à dona galinha.
O patinho que ali tomava o seu banho,
foi logo para o ninho: - que medo tamanho!
A meio caminho, viu as joaninhas,
todas bonitas, de fato às bolinhas
e o gafanhoto que vinha de Espanha
e poisou já ali na pinha castanha.
A minhoca Joca, que nem patas tinha,
foi pedir farinha à sua vizinha.
A vizinha não tinha ido ao moinho,
não tinha farinha, mas deu-lhe um ovinho.
                                   Ana Godinho



lh

Naquele dia de Julho, um coelho viu um repolho e saiu da toca.
Olhou a ovelha malhada que balia à abelha riscada.
Logo a abelha subiu ao telhado de palha.
Mas a palha caiu na pilha de milho que estava molhada.
Um piolho escapou e escolheu um molho de folhas secas.
A abelha riscada poisou no joelho do velho que jogava à malha.
Tudo isto viu o coelho que viu um repolho e saiu da toca.
                                                                                     Ana Godinho




                  ch


O Chico chileno foi ao seu chalé.
Levou a chave no dedo do pé.
Levou chocolate, chapéu e machada
numa mochila muito bem fechada.
O gato bichano que é sabichão,
achou um bichinho que ia no chão.
Chegado a casa, tomou o seu chá
na chávena chinesa que tinha lá.
Comeu seis bolachas com gosto a limão
e deu ao bichano um requeijão.
Chegou à janela e viu que chovia,
ficou de chinelos o resto do dia.
 Ana Godinho




ge e gi

O mágico Gil abanou o chapéu,
Sacudiu, agitou, tapou com o véu.
Mas em vez de coelho, saiu (mas que sina!)
A girafa Gina a comer gelatina!
O mágico pasmado, pegou na geleira,
Mas em vez de gelo, saiu uma cadeira!
Tomou uma gemada que levou três gemas,
Mas do seu chapéu saíram algemas!
Pegou na varinha e então - imagina! -
Saiu geleia de tangerina!
- Mas o que é que tem a minha magia? –
O Gil não viu que toda a sala ria…

                           Ana Godinho


Pastoral

Não há, não,
duas folhas iguais em toda a criação.

Ou nervura a menos, ou célula a mais,
não há, de certeza, duas folhas iguais.

Limbo todas têm,
que é próprio das folhas;
pecíolo algumas;
bainha nem todas.
Umas são fendidas,
crenadas, lobadas,
inteiras, partidas,
singelas, dobradas.

Outras acerosas,
redondas, agudas,
macias, viscosas,
fibrosas, carnudas.

Nas formas presentes,
nos actos distantes,
mesmo semelhantes
são sempre diferentes.

Umas vão e caem no charco cinzento,
e lançam apelos nas ondas que fazem;
outras vão e jazem
sem mais movimento.

Mas outras não jazem,
nem caem, nem gritam,
apenas volitam
nas dobras do vento.

É dessas que eu sou.

António Gedeão (Poesias Completas, 1956-1967)